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Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso

A ARTE DA CALIGRAFIA NO ISLÃO

1. A Caligrafia

Através dos tempos, as religiões, de um modo geral, fizeram uso de imagens figurativas para transmitir a essência de suas convicções. Para o Islão, no entanto, essa arte figurativa assume aspectos de idolatria, motivo porque ele se utilizou de palavras ou letras, em formas e tamanhos diversos, para a transmissão de seus princípios religiosos. Os muçulmanos passaram a usar a arte da caligrafia como expressão religiosa, e, no decorrer do tempo, a arte da escrita tornou-se uma arte muito respeitada.

Segundo o sábio muçulmano Yasin Hamid Safadi, "a supremacia da palavra no Islão está reflectida na aplicação universal da caligrafia. Escrever imprime as características de lugar a todas as espécies de objectos – objectos de uso quotidiano, assim como a superfície de paredes inteiras, mobiliário das mesquitas, o exterior e interior das mesquitas, dos túmulos e da Caaba, o mais famoso santuário islâmico. "

A caligrafia arábica foi a  primeira forma de arte da expressão visual e da criatividade islâmica. Através da vasta geografia do mundo islâmico, a caligrafia é um símbolo que representa unidade, beleza e poder. Os princípios estéticos da caligrafia são um reflexo dos valores culturais do mundo muçulmano. Uma investigação minuciosa das diferenças estéticas entre a caligrafia árabe e não árabe poderia fornecer um caminho para a compreensão do espírito essencial de cada cultura.

O alfabeto arábico alcançou um elevado nível de sofisticação. Uma construção islâmica pode apresentar inúmeros estilos de escrita nas suas paredes, janelas ou minaretes. Muitas das inscrições não se referem necessariamente ao Alcorão, mas, também, aos hadices do profeta, e que estão em sintonia com os objectivos religiosos do edifício. Uma inscrição, por exemplo, pode dar significado à construção, esclarecendo sua função.

A história da caligrafia arábica significa a integração da arte com a erudição. Através da beleza abstracta das linhas, a energia flúi entre as letras e palavras. Todas as partes estão integradas no todo. Essas partes incluem espaços positivos e negativos e o fluxo da energia que abre caminho juntamente com a interpretação do calígrafo. A caligrafia arábica não é simplesmente uma forma de arte, mas envolve representações divinas e morais, de onde ela adquire a sua reputação sublime. A sua beleza abstracta nem sempre é fácil de ser compreendida. Mas esta beleza pouco a pouco acaba por se revelar ao olhar perspicaz.

 

2. As origens da caligrafia arábica

De acordo com os estudos contemporâneos, a escrita arábica é um ramo das escritas semitas, nas quais as consoantes estão representadas. A escrita arábica desenvolveu-se comparativamente num breve espaço de tempo. O árabe tornou-se um alfabeto muito usado e hoje é o segundo em uso, perdendo somente para o alfabeto romano.

Os árabes eram um povo basicamente nómada. Antes do surgimento do Islão, viviam uma vida dura, mas tinham uma cultura rica que se expressava na escrita e na poesia. Muito antes de se tornarem uma nação islâmica, os árabes reconheciam o poder e a beleza das palavras. A poesia, por exemplo, era uma parte essencial da vida quotidiana e as habilidades linguísticas eram exibidas na literatura e na caligrafia. Os primeiros árabes nutriram um grande apreço pela palavra falada e mas tarde, pela sua forma escrita.

A escrita arábica deriva da nabatéia, que, por sua vez, vem da aramaica. Os nabateus eram árabes semi-nómadas que viviam numa área que se estendia desde o Sinai e norte da Arábia, até o sul da Síria. O seu império incluía as cidades de Hijr, Petra e Busra. Embora o império tenha acabado em 105 d.C., sua língua e escrita tiveram profundo impacto sobre o desenvolvimento do alfabeto arábico.

Arqueólogos e linguistas analisaram e estudaram inscrições nabatéias, que representam um estágio de transição mais avançado para o desenvolvimento de caracteres arábicos, como o namarah, do famoso poeta pré-islâmico Imru´al Qays, que data de 328 d.C.  Uma outra inscrição, datando do século VI, confirma a derivação da escrita arábica do nabateu e assinala o nascimento de formas escritas arábicas distintas.

Na década de 650 d.C., foram consignadas, por escrito, as primeiras versões completas do Alcorão, numa forma denominada Jazm, que revela uma influência nabatéia. Esta, por sua vez, influenciou, o desenvolvimento da escrita cúfico, de traço vigoroso e angular, que durante séculos se tornou o meio mais popular de recordar o Alcorão sagrado. Simultaneamente, desenvolveram-se outras escritas cursivas com fins burocráticos e privados e, em meados do século X, já estavam fixadas as seis escritas clássicas da caligrafia islâmica: Thuluth, Naskh, Muhaqqah, Raihani, Tawqi e Riqa.

A escrita do norte da Arábia foi a primeira a ser introduzida e estabelecida na parte nordeste da Arábia. Durante o século V, as tribos nómadas árabes, que viviam nas áreas de Hirah e Anbar, usaram esta escrita. Na primeira parte do século VI, a escrita dessa região alcançou Hijaz, na Arábia oriental. Acredita-se que Bishr ibn Abd al-Malik, e seu sogro, Harb ibn Umayyah, tenham introduzido e popularizado o uso deste alfabeto na tribo coraixita do profeta Muhammad, e que foi adoptado, com entusiasmo, por outras tribos das cidades vizinhas.

O Jazm é o alfabeto arábico mais antigo de que se tem referência. Acredita-se que era uma forma mais avançada do alfabeto nabateu. As letras rígidas, angulares e bem proporcionadas do alfabeto jazm iriam influenciar mais tarde o famoso alfabeto kufi, a escrita cúfica, de uma pequena cidade do Iraque.

 

3. Instrumentos da escrita

Os instrumentos típicos do ofício de calígrafo incluíam penas de junco e pincéis, tesouras, uma faca para cortar as penas, um tinteiro e um apontador. A pena de junco, segundo Safadi, era a preferida pelos calígrafos islâmicos. Esta pena, chamada de cálamo, ainda é um instrumento importantíssimo para o verdadeiro calígrafo.

Os juncos mais procurados eram oriundos das terras costeiras do Golfo Pérsico. Os cálamos eram objectos valiosos e foram comercializados por todo o mundo muçulmano.

Um escriba versátil precisava de diferentes cálamos, a fim de alcançar os diferentes graus de delicadeza. Moldar um junco exigia do escriba habilidades excepcionais. Além disso, tinham um conhecimento meticuloso de como identificar a melhor vareta que fosse adequada para ser uma boa pena, como aparar as pontas e como cortar as varetas exactamente no centro, de modo que o corte tivesse metades iguais.

Uma boa pena era cuidadosamente guardada e, algumas vezes, passava de uma geração a outra. Outras vezes, ela era enterrada com o calígrafo quando ele morria.

Eram usadas tintas de muitas cores, incluindo o preto, o castanho, o amarelo, o vermelho, o azul, o branco, a prata e o ouro. O preto e o castanho eram as cores mais frequentemente usadas, porque a sua intensidade e consistência podiam variar enormemente. Muito calígrafos davam instruções de como preparar a tinha, mas muitos guardavam em segredo as suas receitas. A tinha feita pelos persas, hindus e turcos conservavam a sua frescura por um tempo considerável. A preparação da tinha levava muitos dias e envolvia complicados processos químicos. Por causa de seu poder de preservar o conhecimento e transmiti-la a todo os recantos do mundo, a tinta era comparada com a água e o calígrafo como uma pena nas mãos de Deus.

O papel foi introduzido em 751 d.C., vindo da China para Samarcanda. Este foi o marco decisivo na arte da escrita e desempenhou um papel importantíssimo nas inúmeras invenções subsequentes e que reformariam a caligrafia arábica. Este novo meio de comunicação escrita teve um impacto decisivo sobre todos os aspectos da civilização islâmica.

O papel era feito de algodão e, algumas vezes, de seda ou de outras fibras, mas não de madeira. Ele era polido com uma pedra lisa, como a ágata ou o jade antes que o calígrafo começasse a escrever. Linhas de orientação quase invisíveis eram traçadas com uma ponta e as letras ficavam sobre essas linhas.

Uma vez pronta, a composição caligráfica podia ser copiada de tempos em tempos pelos mestres dos mais diferentes lugares, tão distantes quanto a Índia ou Istambul. Como em muitas artes tradicionais, dava-se menos importância às inovações e mais à imitação dos grandes mestres, tanto contemporâneos quanto os antigos. Apesar disso, alguns mestres foram notáveis inovadores.

 

4. Exemplos de caligrafia

Em todos os elementos da arte islâmica o aspecto mais importante é a religião. A multidão de pequenos impérios e reinos que tinham adoptado o Islamismo sentiu-se – apesar dos orgulhos e ciúmes – antes e sobretudo muçulmana, e não árabe, turca ou persa. Todos sabiam, falavam e escreviam de forma regular o árabe, a língua do Alcorão. A caligrafia é a suprema das artes islâmicas, e a expressão mais típica do espírito muçulmano. "O teu Senhor – declara a primeira revelação - ... Ensinou com o cálamo, ensinou ao homem o que ele não conhecia."

Além disso, como Deus falou em árabe, por intermédio do anjo Gabriel, e as suas palavras foram escritas, pela primeira vez em árabe, a língua e a escrita árabes foram consideradas como tesouro inestimável por todos os muçulmanos. Só entendendo-as os homens poderiam esperar compreender o pensamento de Deus. Não podiam ter uma missão mais importante que a de conservar e transmitir tesouro tão precioso; e os muçulmanos demonstraram a sua gratidão, fazendo-o com toda a arte de que foram capazes.

 

A escrita naskh

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Foi uma das primeiras a evoluir. Ganhou popularidade depois de ser redesenhada pelo famoso calígrafo Ibn Muqlah, no século X. O seu sistema abrangente de proporção deu à escrita naskh um estilo bem característico. Mais tarde, ela foi reformulada por Ibn al-Bawaab e outros, que a transformaram numa escrita digna do Alcorão – muitos exemplares do Alcorão foram escritos em naskh, mais do que qualquer outro tipo de escrita. Pelo facto de ser relativamente fácil de ler e de escrever, a escrita naskh teve uma grande aceitação por parte da população em geral.

A escrita naskh é normalmente feita com traços pequenos horizontais e as curvas são cheias e profundas, os traços rectos e verticais e as palavras geralmente bem espaçadas. Actualmente, a naskh é considerada a escrita suprema para quase todos os muçulmanos e árabes em todo o mundo.

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Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso – em escrita naskh

 

A escrita kufi

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A escrita kufi (cúfica) foi a escrita sagrada dominante nos primórdios do Islão. Ela foi criada após o estabelecimento das duas cidades muçulmanas de Basra e Kufa, na segunda década da era islâmica (século VIII). Tinha medidas proporcionais específicas, juntamente com uma angulosidade e linhas quadradas bem pronunciadas. Tornou-se conhecida como a escrita kufi. Essa escrita exerceu um profundo efeito em toda a caligrafia islâmica. Em contraste com as linhas verticais, a escrita kufi tem linhas horizontais que são prolongadas. É uma escrita consideravelmente mais larga do que alta. Ela foi escolhida para ser usada em superfícies oblongas. Com sua construção geométrica, a escrita kufi podia ser adaptada em qualquer espaço e material, desde os pequenos quadrados de seda até os monumentos arquitectónicos deixados por Timur (Tamerlão), em Samarcanda.

Como a escrita kufi não se sujeitava a regras rígidas, os calígrafos a empregaram sem qualquer esquema de concepção ou execução para as suas formas ornamentais. A escrita assumiu diversas formas, ora com um fundo floral, com desenhos geométricos, ou formas geométricas interligadas, inclusive círculos, quadrados e triângulos – formando palavras, etc. Essas versões foram aplicadas a superfícies de objectos arquitectónicos, incluindo superfície de estuque, madeira, metal, vidro, mármore, têxteis, etc.

A escrita Thuluth

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Foi a primeira escrita formulada no século VII, durante o califado omíada, mas só se desenvolveu completamente no final do século IX. Embora muito raramente tenha sido usada para escrever o Alcorão, a escrita thuluth gozou de enorme popularidade como uma escrita ornamental e foi muito usada para as inscrições caligráficas, títulos, cabeçalhos, etc. É ainda a mais importante de todas as escritas ornamentais.

É caracterizada pelas letras curvas, apresentando pequenos traços, como farpas, na parte de cima das letras. As letras são ligadas e algumas vezes entrecortadas, produzindo, assim, uma fluência cursiva de grandes e complexas proporções. A escrita thuluth é conhecida por seus traços elaborados e por sua incrível plasticidade.

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Surata Al-Fatiha, em escrita Thuluth, tinta, guache e ouro sobre papel

 

A escrita riq´ah

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A escrita riqa, também chamada de ruq´ah, evoluiu das escritas naskh e thuluth. Ainda que tenha uma afinidade maior com a escrita thuluth, a escrita riqa tomou uma direcção diferente, ficando mais simplificada. As formas geométricas das letras são semelhantes às da thuluth, porém são menores e com mais curvas. Ela é arredondada e estruturada de uma forma mais densa, com pequenos traços horizontais.

A escrita riq´ah foi uma das favoritas dos calígrafos otomanos e sofreu muitas modificações nas mãos do Sheikh Hamdullah al-Amasi. Mais tarde, ela foi revista por outros calígrafos até transformar-se na escrita mais popular e a mais amplamente usada. Hoje, a escrita riqa é a preferida para a caligrafia no mundo árabe.

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As escritas cursivas também foram rapidamente utilizadas para a transcrição alcorânica, trazendo novas possibilidades para o êxito de efeitos decorativos. E surgiram, assim, as outras quatro escritas importantes: as de Tumar, Ghubar, Taliq e Nastaliq, que, embora não se tornassem populares entre os árabes, foram durante quase quatro séculos a escrita favorita dos muçulmanos do Irão, da Turquia e da Índia.

 

A escrita taliq

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Acredita-se que foi uma escrita desenvolvida pelos persas, de uma antiga e pouco conhecida escrita árabe, chamada firamuz. Taliq, também chamada de farsi, é uma escrita cursiva modesta, aparentemente em uso desde o início do século IX.

O calígrafo Abd al-Hayy, da cidade de Astarabad, parece ter desempenhado um papel importante no início da escrita. Ele encorajou seu patrono, Xá Ismail, a estabelecer as regras básicas da escrita taliq. Actualmente, este tipo de escrita goza de uma boa aceitação entre os árabes e é o estilo caligráfico entre os muçulmanos persas, hindus e turcos.

 

A escrita Nastaliq

O calígrafo persa Mir Ali Sultan al-Tabrizi desenvolveu uma variedade mais leve e elegante de estilo que ficou conhecida como nastaliq. No entanto, os calígrafos persas e turcos continuaram a usar o taliq como escrita para as ocasiões especiais. Nastaliq é uma palavra composta que deriva de naskh e de taliq. A nastaliq foi muito usada nas antologias, épicos, miniaturas e outros trabalhos literários, mas não para o Alcorão.

Os exemplos de caligrafia como motivo ornamental encontram-se por todo o lado: nas pedras dos túmulos e nos têxteis, nas ânforas, nas armas e nos azulejos, adaptando as formas mais surpreendentes na decoração dos edifícios. As palavras do Alcorão são importantes como forma de embelezamento das mesquitas que elas adornam. Há catorze séculos, muçulmanos de todas as partes do mundo vêm escrevendo, em árabe, os versículos do Alcorão nas mais variadas formas de caligrafias.

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Tinta e guache sobre estuque, com traços de ouro, Nastaliq

                 

FONTES: "As origens da Caligrafia Arábica" - Khalid Mubireek

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