2006-09-15
Comunicado da Comunidade Islâmica de Lisboa
A Comunidade Islâmica de Lisboa ficou profundamente surpreendida e triste com os excertos do discurso do Papa Bento XVI, proferido no encontro com os representes da Ciência na Aula Magna da Universidade de Regensburg e divulgados esta manhã pelos diversos órgãos da Comunicação Social.
Tivemos, no entanto o cuidado de não nos precipitar e procurámos saber com exactidão em que contexto Bento XVI teria escolhido este particular episódio – uma conversa entre um Imperador Bizantino Cristão e um Persa num acampamento militar perto de Ankara. Conseguimos um exemplar do discurso e depois da sua leitura, embora um pouco superficial, não nos parece que fosse intenção expressa do Papa Bento XVI atacar o Islão e os muçulmanos, sobretudo atendendo à forma como termina, incitando ao uso da razão no diálogo de culturas.
No entanto, consideramos que, dos muitos diálogos havidos, ao longo dos séculos, entre cristãos e muçulmanos, o Papa foi decerto muito infeliz na sua escolha, sobretudo nos tempos tão conturbados em que vivemos.
De realçar que, nas últimas três décadas, a Igreja Católica tem vindo a alterar o seu discurso relativamente às outras religiões e, em particular, ao Islão e aos muçulmanos, sobretudo desde que o Papa João XXIII se dirigiu na sua Encíclica “Pacem in Terris” “a todos os homens de boa vontade”.
Preocupa-nos pois que todas as manifestações de abertura por parte da Santa Sé e dos Sumo Pontífices anteriores, estejam agora a ser profundamente abaladas através deste infeliz exemplo escolhido por Bento XVI. Não será de mais recordar algumas: em 1967, no Cairo, o Secretariado do Vaticano convida todos os Cristãos a cumprimentar os Muçulmanos, por ocasião do fim do Jejum de Ramadão, que considera de “valor religioso autêntico”; em Abril de 1974 Paulo VI, animado de uma fé profunda na unificação dos mundos Islâmico e Cristão que adoram um só Deus, envia uma mensagem ao Rei Faisal da Arábia Saudita, apresentando cumprimentos; também nesse mesmo ano, por ocasião de um colóquio entre Muçulmanos e Cristãos, recebe alguns Grandes Teólogos do Islão e convida-os a fazer a oração do meio do dia (Oração de Zohr) na Catedral; e, mais recentemente, todas as manifestações solidárias e fraternas de João Paulo II.
Estamos certos, portanto, que a Santa Sé saberá gerir esta situação por forma a não criar fracturas que poderão, eventualmente, danificar as relações inter religiosas e o dialogo entre os crentes das diferentes confissões, sobretudo dentro do espírito do Vaticano II que marcou esta nova era de abertura e convivência fraterna entre as religiões Abraâmicas e, em particular, com o Islão.
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